O poço da tarja preta
“Poço da tarja preta” é a expressão que um paciente utilizou para descrever a situação em que se encontrava, tomando psicofármacos de quatro classes diferentes – a rigor, apenas dois de tarja preta –, algo que o angustiava e o fazia se perguntar: seria correta aquela prescrição médica?
Segundo ele contou, tem diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada (o famoso "TAG"). Faz tratamento há 5 meses com 150 mg de desvenlafaxina pela manhã. À noite, toma 10 gotas de clonazepam (Rivotril) e um comprimido de quetiapina, “para poder dormir bem”. Todavia, algum tempo depois de iniciar o consumo dessas medicações, começou a apresentar falhas de memórias e, ao relatar isso ao médico que o acompanhava anteriormente, o colega teria adicionado metilfenidato (Ritalina) àquela já extensa prescrição de psicofármacos. O paciente, com razão, informou ao profissional que estava preocupado em tomar “tantos remédios”, mas o médico advertiu-lhe que “era necessário”. Questionando se tal conduta seria apropriada, o paciente decidiu buscar uma segunda opinião a respeito de seu caso.
Eu disse ao paciente que lamentava a violência química à qual ele foi submetido. Informei que uma combinação de tantos medicamentos psicotrópicos ao mesmo tempo não tem nenhum embasamento científico e que a considerava bastante inapropriada. No entanto, esse tipo de prescrição costuma acontecer quando as questões de saúde mental, como o transtorno de ansiedade generalizada, são tratadas com foco na medicação, não na escuta de cada pessoa. As medicações têm a sua importância, claro, porém não são o principal elemento de um plano terapêutico sensato na seara da saúde mental.
Recomendei ao paciente que seria importante iniciar um tratamento psíquico – por exemplo, por meio da psicanálise –, se porventura ainda não fizesse nenhum. Ao se tornar pilar do tratamento, a terapia psíquica faz com que as medicações assumam o papel apenas de adjuntas, sendo prescritas somente quando há indicação oportuna para elas. Uma vez firmado esse pilar, também se torna mais seguro iniciar um trabalho de desprescrição gradativa dos psicofármacos, supondo que o papel deles no tratamento já tenha sido cumprido. Ressaltei ao paciente que não é seguro suspender abruptamente essas medicações, pois a retirada brusca pode desencadear sintomas de abstinência. Portanto, quando há condições clínicas para iniciar o desmame dessas drogas – e isso inclui paciente e médico estarem de acordo sobre a retirada –, o processo deve ser feito de modo supervisionado pelo profissional.
Apesar de o poço da tarja preta parecer bastante profundo em algumas circunstâncias, não é impossível sair dele. E, nas situações em que não for possível deixá-lo totalmente, tenho convicção de que vale a pena pelo menos começar a subida em direção à luz de uma vida menos medicalizada.
Bruno Guimarães Tannus
psicanalista e médico especialista em Medicina de Família e Comunidade
CRM-PR 25429 / RQE 35797
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[acesso em 03 dez 25]

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