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A psicanálise não é uma resposta, é uma pergunta que se sustenta

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Muitas pessoas buscam na internet, na medicina ou na psicologia soluções rápidas e mágicas para seus problemas. Não por acaso, vivemos na era dos excessos de respostas prontas, protocolos e diagnósticos de prateleira. Na contramão da cultura do coach e dos rótulos, tão presentes em nosso tempo, o psicanalista não deve ocupar o lugar daquele que fornece respostas ao seu paciente. Ao contrário, sua posição consiste em sustentar um espaço em que o sujeito possa produzir o saber inconsciente que é somente dele. Afinal, a psicanálise parte da suposição de que há um saber em jogo e, ainda que tal saber não seja dado a priori, ele será descortinado no percurso analítico, abrindo caminho para a novidade na vida do analisante. Do ponto de vista psicanalítico, portanto, a cura não vem pela resposta que o outro dá, mas sim pela capacidade de a pessoa passar a sustentar as próprias perguntas e a implicar-se nos próprios desejos. Bruno Guimarães Tannus psicanalista e médico especialista em Medicin...

O não pode ser sim na psicanálise

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A negação é uma forma de tomar conhecimento do que foi reprimido, já é mesmo um levantamento da repressão, mas não, certamente, uma aceitação do reprimido. Nisso vemos como a função intelectual se separa do processo afetivo.  Assim afirmou Sigmund Freud em seu importante texto intitulado "A negação", publicado no longínquo ano de 1925, mas ainda impressionantemente atual. Essa obra revela um fenômeno que observamos frequentemente durante uma psicanálise: o sujeito inicia uma frase negando algo; todavia, o significado inconsciente disso que ele nega é exatamente o oposto. Diz, por exemplo, que tal coisa "não tem nada a ver com a mãe", mas, ao mencionar a genitora, já está, justamente, colocando-a na mesma sentença que a coisa. Ao conduzir uma análise, porém, o psicanalista deve ter cautela para não incorrer em selvagerias com seu analisante, pois, como bem frisou Freud no texto em pauta, o fato de o reprimido ter aflorado em determinada sentença negativa não signific...

Uma breve resenha psicanalítica sobre "O Homem Imortal"

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Estreou no último final de semana "O Homem Imortal", filme que encerra a antológica série Peaky Blinders , que tem a família Shelby como protagonista. Se você ainda não viu, fique tranquilo/a quanto à possibilidade de spoilers neste post, pois eles não acontecerão. Minha intenção aqui, de forma muito breve, é compartilhar uma interessante relação que percebi entre o enredo do filme e o tema de um excelente livro, cuja leitura finalizei no mesmo dia em que me despedi dos Shelby. Refiro-me ao livro "O complexo de Telêmaco", do psicanalista italiano Massimo Recalcati. O filme é marcado pelo embate entre Tommy Shelby e seu filho primogênito ilegítimo, Erasmus "Duke" Shelby. Trata-se de um embate sobre herança, mas não aquela herança do senso comum. Nas palavras de Recalcati, "a herança é o efeito de uma reconquista do que foi, é o produto de uma escolha, de uma assunção subjetiva de toda a nossa história, que é, acima de tudo, a história do Outro. [...] ...

Reflexões médicas e psicanalíticas sobre um caso de enxaqueca

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Se é verdade que na medicina a clínica é soberana, como me disse outrora um estimado professor, sua afirmação parece também se aplicar muito bem à psicanálise. É sempre a partir da clínica que se constroem as boas teorias nesses campos de atenção ao humano. E de nada valeriam as teorias se não houvesse o fazer clínico para aplicá-las. Assim sendo, posto que o presente trabalho se propõe a articular medicina e psicanálise, nada melhor do que ilustrá-lo com uma vinheta clínica. Trata-se de uma mulher de 20 e poucos anos, que buscou comigo consulta médica para se queixar de crises recorrentes de enxaqueca, tendo realizado anteriormente inúmeros atendimentos com outros colegas em função da mesma situação. Segundo ela, o problema começou ainda na infância, todavia piorou a partir dos seus 16 anos de idade, quando as dores de cabeça tornaram-se mais frequentes e eventualmente incapacitantes, a ponto de lhe causarem faltas no trabalho e de necessitar atendimentos de urgência para ser medicada...

Transtorno obsessivo-compulsivo: o que é e como tratar

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O transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) é um diagnóstico psiquiátrico, mas certamente uma condição bastante prevalente tanto nos consultórios de psicanalistas quanto de médicos. Afinal, como lidar com isso? Quais possibilidades de abordagem são mais apropriadas para trata-lo? Inicialmente, vale delimitar o TOC como um problema relacionado à saúde mental. Nesta área, praticamente todos os diagnósticos se fazem sem exames complementares (por exemplo, testes de laboratório ou exames de imagem), porque dependem, essencialmente, do discurso do(a) paciente. Chega-se ao diagnóstico, pois, através da clínica, basicamente com a entrevista que acontece entre o médico e a pessoa que afirma sofrer de obsessões e compulsões. A propósito, enquanto as obsessões são pensamentos ou imagens que insistem em vir à mente, mesmo que a contragosto da pessoa, causando-lhe angústia, as compulsões são comportamentos ou atos repetitivos que ela se sente obrigada a realizar justamente para reduzir a ansiedade ger...

Como controlar a ansiedade?

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É comum pacientes me consultarem com essa pergunta. Enquanto médico, digo-lhes que atualmente existem muitas opções de medicamentos cujo propósito é justamente "controlar a ansiedade", alguns mais eficazes, outros menos. Todavia, é inevitável que o psicanalista que também habita em mim lhes proponha a seguinte ideia: será que a melhor maneira de "controlar" a ansiedade não seria exatamente controlá-la, mas sim compreendê-la? Claro, especialmente em situações agudas, alguns recursos para "controlar" a ansiedade, por exemplo o uso de medicações ansiolíticas, técnicas cognitivo-comportamentais e alguns exercícios físicos, podem ser bastante válidos, mas eles não mudarão a relação da pessoa com seus sintomas ansiosos, apenas vão camuflá-los ou suprimi-los por algum tempo, ou mesmo deslocá-los. Se nossa intenção é uma abordagem mais profunda, faz-se necessário olhar com cuidado para tais sintomas, falar sobre as situações em que eles acontecem, entender as circ...

Fascismo e comunismo: extremismos em perspectiva histórica e psicanalítica

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Se você é alguém que chama de fascista qualquer pessoa no espectro político da direita ou que nomeia de comunista qualquer um que tenha ideias mais alinhadas com as correntes políticas de esquerda, convido-lhe a prosseguir com a leitura desta reflexão, que talvez possa lhe ampliar os horizontes, mostrando outra forma de lidar com posicionamentos políticos. O texto também é um convite a você que simplesmente deseja se aprofundar um pouco mais nesse tema e ter novas percepções sobre nosso mundo polarizado. Atualmente as palavras “fascismo” e “comunismo” estão bastante desgastadas e utilizadas em contextos inapropriados. A primeira é equivocadamente associada a “extremistas de direita”, enquanto a segunda, também de modo equivocado, a qualquer um que se afeiçoe a ideias mais à esquerda no pensamento político. Ao propor situar tais palavras numa perspectiva histórica, vamos buscar primeiro contextualizar fatos. E, num segundo momento, pensar esses fatos sob a ótica da Psicanálise. Inicialm...