O não pode ser sim na psicanálise


A negação é uma forma de tomar conhecimento do que foi reprimido, já é mesmo um levantamento da repressão, mas não, certamente, uma aceitação do reprimido. Nisso vemos como a função intelectual se separa do processo afetivo.
 Assim afirmou Sigmund Freud em seu importante texto intitulado "A negação", publicado no longínquo ano de 1925, mas ainda impressionantemente atual.

Essa obra revela um fenômeno que observamos frequentemente durante uma psicanálise: o sujeito inicia uma frase negando algo; todavia, o significado inconsciente disso que ele nega é exatamente o oposto. Diz, por exemplo, que tal coisa "não tem nada a ver com a mãe", mas, ao mencionar a genitora, já está, justamente, colocando-a na mesma sentença que a coisa.

Ao conduzir uma análise, porém, o psicanalista deve ter cautela para não incorrer em selvagerias com seu analisante, pois, como bem frisou Freud no texto em pauta, o fato de o reprimido ter aflorado em determinada sentença negativa não significa que tenha sido necessariamente aceito — introjetado como verdade — pelo paciente.

Esse cuidado do psicanalista, de não deixar de pontuar a negação, mas ao mesmo tempo de não interpretá-la forçosamente, favorecerá que o sujeito em análise se mantenha no processo para, em momento oportuno, aceitar o conteúdo psíquico que outrora reprimiu. Conforme também ressaltou Freud nesse escrito, as questões afetivas estão, via de regra, apartadas da razão.

Bruno Guimarães Tannus
psicanalista e médico especialista em Medicina de Família
CRM-PR 25429 / RQE 35797

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[acesso em 08 jul 2026]

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