Borderline


Atualmente, na prática clínica, é relativamente comum escutarmos pessoas autointitulando-se "borderline" ou recebendo esse rótulo de familiares. Mas, afinal, o que significa isso?

Comecemos a pensar na questão pela semântica da palavra borderline: trata-se de um termo da língua inglesa que significa, literalmente, "linha de fronteira", "limiar" ou "limítrofe". Ou seja, indica aquilo que está situado em uma zona divisória, com características ambíguas ou liminares entre dois estados distintos.

No campo da saúde mental, o termo borderline foi introduzido na literatura psiquiátrica no final do século XIX e consolidou-se em 1938, quando o psicanalista norte-americano Adolph Stern passou a utilizá-lo em situações peculiares. Na época, a psiquiatria e a psicanálise dividiam a nosologia psíquica em duas grandes categorias estruturais principais: a neurose e a psicose. Stern lançou mão da palavra borderline para descrever um grupo de pacientes que pareciam habitar uma "fronteira" entre a neurose e a psicose. Eram indivíduos que não apresentavam a desorganização crônica das psicoses, tampouco respondiam adequadamente às abordagens psicanalíticas clássicas, que eram reservadas às neuroses.

Em 1980, o termo borderline foi incluído no DSM-III, deixando de ser apenas um adjetivo descritivo para se tornar uma categoria diagnóstica formal — o Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) —, abandonando-se definições como "pré-psicose" ou "neurose grave". Mais recentemente, a utilização do nome borderline tem sido por vezes criticada por sua opacidade: a metáfora da "fronteira" descreveria a história da descoberta e classificação dessa condição, mas não o fenômeno clínico principal do transtorno em si. Por essa razão, classificações modernas têm priorizado termos como Transtorno de Personalidade de Desregulação Emocional ou Transtorno de Personalidade Limítrofe, visto que os críticos do termo borderline defendem a ideia de que o traço essencial das pessoas com esse diagnóstico não é exatamente estar "na borda da psicose" (será?), mas sim sua intensa volatilidade no processamento dos afetos, no controle dos impulsos e nas relações interpessoais.

Embora a psicofarmacologia possa, em casos selecionados de TPB, atuar como intervenção adjuvante, focando no manejo de sintomas específicos e comorbidades, a viga mestra do tratamento para pessoas com tal condição clínica é a terapia psíquica. Isso inclui a psicanálise, que, especialmente por meio do ensino de Jacques Lacan, expandiu sua capacidade de ação para muito além das neuroses.

A propósito, a palavra borderline, uma vez trazida pelo sujeito durante as sessões de análise, tem potencial para se tornar pilar de incontáveis perguntas e elaborações: que limite é esse? Onde ele se apresenta? Qual é a borda que insiste em ser cruzada, tangenciada ou tomada como barreira? Só quem trabalha a própria mente entende os benefícios terapêuticos que podem advir de se colocar em cena essas questões, sem necessariamente ter que encontrar respostas para elas.

Bruno Guimarães Tannus
psicanalista e médico especialista em Medicina de Família e Comunidade
CRM-PR 25429 / RQE 35797

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Arte do post:

"Borderline" Painting - by Sonny Andersson, Sweden

disponível em: https://www.saatchiart.com/art/Painting-Borderline/1690833/12813433/view?srsltid=AfmBOorKrjwBUvAVaW2RVTGRMLPZoBctAl_2LegWbcJI5O-zk8grTwFh

[acesso em 05 ago 26]


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