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Anticoncepção além da pílula

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O planejamento familiar é um direito das pessoas, embora não seja exercido em inúmeras circunstâncias. Muitas vezes ele não é levado a termo em virtude de pulsões sexuais transformadas em ato irresponsavelmente, através de coitos desprotegidos. Outras vezes, no entanto, observa-se que as pessoas abdicam de seu direito por mera ignorância em relação às diversas possibilidades de métodos contraceptivos, ainda que a maioria deles seja distribuída gratuitamente através do sistema público de saúde. Embora a primeira situação seja de compreensão difícil, aplacar parte do desconhecimento sobre anticoncepção pode ser viável às pretensões deste texto. Comecemos chamando a atenção para a condição do grupo de mulheres mais próximo da menopausa. Antes de pararem definitivamente de produzir óvulos, geralmente em torno dos 50 anos de idade, as mulheres costumam vivenciar um período longo de irregularidade menstrual. Nesta fase irregular ainda há possibilidade de engravidar, portanto o planejamen...

Breve comentário sobre a pílula rosa

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Foi destaque durante esta semana no noticiário internacional a “pílula rosa”, que tem como princípio ativo a flibanserina. Quando parecia que já tínhamos visto tudo o que era possível em termos de medicalização do ser humano, ela apareceu com a prepotência de anunciar que "desperta o desejo feminino pelo sexo". Pior que esta bobagem imensurável é saber que vai haver uma avalanche de mulheres, em corrida desesperada às farmácias, tão logo as primeiras caixinhas da medicação cheguem às prateleiras. Desejo, por definição, jamais poderá ser medicado, pois isto seria o mesmo que abrir mão da condição humana. A grande doença da maioria das pessoas é exatamente o fato de não darem conta de assumir os próprios desejos, nem mesmo o desejo de não transar (afinal, que grande absurdo seria não querer sexo hoje em dia, não é mesmo?). Parafraseando Dethlefsen e Dahlke, a medicina convencional promete, com suas pílulas mágicas, restaurar corpos e mentes humanos com diversos tipos d...

Enurese, o xixi repleto de significado

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Um colega de profissão questionou-me sobre um caso de enurese noturna, o famoso “xixi na cama”, em um menino de 7 anos de idade. A dúvida era sobre a abordagem indicada para essa criança, pois até o momento ela teria recebido apenas tratamento psicológico, sem resolução de seu problema. Na apresentação do caso, o colega mencionou a história familiar do menino como “sem importância para o caso”. Eis aqui, provavelmente, a principal dificuldade do médico em ajudar seu paciente: não considerar o contexto. A história familiar tem importância sim, e muita, para o caso dessa criança. Somente a partir deste entendimento, poderemos pensar na possibilidade de cura. Conhecer o funcionamento da família da qual a criança faz parte, bem como outros aspectos de seu contexto social, é parte fundamental da investigação e do manejo dos casos de enurese, pois as causas psíquicas são fatores preponderantes à ocorrência desse problema. Isto é particularmente verdadeiro quando já foram descarta...

O uso crônico de omeprazol e as verdades difíceis de engolir

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Não é incomum as pessoas comprarem e utilizarem medicamentos sem indicação médica, assim como não é raro encontrarmos prescrições médicas inadequadas por aí. Estas duas ações, em conjunto, trazem um sério problema para a saúde de muitos: o uso incorreto de certas medicações. Entre os campeões neste sentido, estão os analgésicos comuns e os anti-inflamatórios não esteroidais. Contudo, recentemente vem ganhando destaque a utilização inadvertida de omeprazol, uma das pautas de nossa conversa hoje. Ao fazer referência ao omeprazol, podemos estender nosso raciocínio a todos as outras drogas de sua classe, conhecida como inibidores da bomba de prótons do estômago, entre os quais estão ainda esomeprazol, lanzoprazol, pantoprazol e rabeprazol, pois seus mecanismos de ação são praticamente idênticos e, até o momento, não há evidências científicas definidas indicando superioridade de um deles sobre os demais (esta informação, no entanto, não raro é negligenciada ou distorcida por médicos e...

A família como um sistema determinante de saúde

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Família. Uma palavra pequena que pode nos remeter a diversos sentimentos. Um conjunto de pessoas que, funcionando como um sistema altamente complexo, exerce forte influência sobre a saúde dos indivíduos que o compõe, de maneira positiva ou negativa. Em alusão ao Dia Internacional da Família, celebrado no dia 15 de maio, proponho hoje uma reflexão para mergulharmos, ainda que superficialmente, nas particularidades do sistema familiar e sua importância para a saúde dos seres humanos. Para começar, vale dizer que uma das definições antropológicas de família a toma como um grupo de pessoas com grande intimidade entre si, que possuem uma história e planejam um futuro juntas. Ao usarmos esta definição, geralmente estaremos falando da unidade familiar ou família nuclear, com seus componentes residindo, habitualmente, em um mesmo local. Percebemos, assumindo tal ideia de família, que não há necessidade da existência de parentesco biológico para que indivíduos sejam considerados membros d...

Câncer de próstata: doença ou invenção?

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Quando se fala sobre saúde do homem, em especial no quesito prevenção, uma das primeiras doenças que lembramos é o câncer de próstata. Isto não é uma surpresa, pois campanhas nacionais como o “Novembro Azul” têm massificado, com um estrondoso sucesso, a ideia de que o rastreamento dessa doença é algo importante para todas as pessoas do sexo masculino após certa idade. Refiro-me ao grande sucesso da ideia porque, recebendo diversos pacientes no consultório para realização de avaliações preventivas, incluindo rastreamento de doenças, percebo que é regra, não exceção, a preocupação dos homens em relação ao câncer de próstata. Será mesmo que há fundamento para tanta preocupação? Inicialmente, é importante entendermos que rastrear uma doença significa tentar diagnosticá-la antes que ela provoque sintomas no indivíduo que se submete ao rastreamento. Rastrear uma doença, portanto, não significa impedir sua ocorrência. Se uma pessoa já apresenta sintomas, o processo de busca do diagnóst...

De onde vêm as convulsões?

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Recentemente, a RBS TV, filial da Rede Globo em Santa Catarina, exibiu uma matéria mostrando uma mulher jovem com diagnóstico de epilepsia. Ela teria obtido na justiça, em primeira instância, o direito de receber do Estado o “tratamento” com canabidiol para sua doença. A reportagem foi algo tendenciosa em celebrar a decisão judicial favorável à mulher. Entretanto, há incongruências bastante relevantes nesta decisão, bem como um certo reducionismo em torno do tratamento da epilepsia. Vejamos por quê. A primeira inadequação sobre obrigar o Estado a custear a prescrição do canabidiol, um derivado da Cannabis sativa , famosa maconha, reside no fato de que, segundo o UpToDate® ( www.uptodate.com ), respeitadíssimo sítio de informações médicas baseadas nas melhores evidências científicas disponíveis atualmente, não há dados de ensaios clínicos controlados que indiquem a existência de eficácia dos canabidinoides no tratamento das epilepsias, menos ainda da erva in natura . Como se não...