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Uma breve crônica da medicina moderna

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“Doutor, eu posso te processar se você não pedir o exame pra mim.” Foi exatamente assim, em tom de ameaça, que uma mulher jovem, de 20 e poucos anos, falou comigo recentemente em consulta, quando inicialmente recusei solicitar uma ressonância magnética de crânio para ela. Esse caso me fez pensar e refletir sobre diversos assuntos. Boa oportunidade, portanto, para escrever e registrar algumas ideias. Vejamos. O exame mencionado, supostamente indicado por outro médico, segundo informou a jovem, seria para “investigar sequelas neurológicas da Covid-19”. No entanto, se a história é verídica, o colega sequer se deu ao trabalho de formalizar a solicitação, talvez por saber, em seu íntimo, que era absurda. Não porque sequelas neurológicas dessa doença inexistam, mas porque a mulher em questão apresentava inespecíficas e eventuais p arestesias (“formigamentos”) , queixas somáticas claramente incompatíveis com doença neurológica na ocasião, tendo em vista também que o exame físico era normal e ...

O que é a psicanálise?

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Não me parece uma tarefa simples responder à pergunta título deste artigo, mesmo para pessoas que já experimentaram o processo psicanalítico, se assim podemos chama-lo. Todavia, vejamos o que será possível dizer sobre a psicanálise sucintamente neste espaço, de modo a iluminar certos obscurecimentos para aqueles que a conhecem e torna-la menos infamiliar , usando um termo freudiano, aos que ainda sabem pouco a seu respeito, mas consideram nela mergulhar.  No início do século XX, mais exatamente em 1909, em conferência proferida nos Estados Unidos, o próprio Freud, em sua primeira e única viagem à América, denominou a psicanálise como um novo método de investigação e de cura . Embora o conceito de cura não seja exatamente psicanalítico, segundo as concepções contemporâneas da Psicanálise, Juan-David Nasio, em seu livro “Como trabalha um psicanalista?”, afirma que a análise produz efeitos de diminuição, e até de desaparecimento do sofrimento do paciente. São efeitos que se produzem e...

Em tempos de pandemia, nem só de coronavírus padecem os sujeitos

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Em meio à pandemia de coronavírus, diversas medidas foram adotadas com o objetivo de evitar a disseminação do microrganismo. Nos hospitais, logo na entrada estabeleceu-se um novo esquema de triagem, através do qual um enfermeiro questiona se o paciente possui algum sintoma respiratório, por exemplo, tosse, dor de garganta e/ou dispneia (falta de ar), e uma vez que o sujeito relate sentir um ou mais desses é imediatamente encaminhado para realizar a consulta médica numa ala separada das demais, destinada a receber apenas casos suspeitos ou confirmados de Covid-19, como é conhecida a infecção causada pelo novo coronavírus. No entanto, nessa área, em tese contaminada e não raro temida, nem sempre chegam pessoas triadas adequadamente. Ilustrarei tal situação, de triagem inapropriada, contando o caso de Deise (nome fictício para uma pessoa real). Ela, uma mulher de 30 e poucos anos, chegou à ala Covid, onde eu atendia na ocasião, queixando-se de dores nas costas, que pioravam ao inspirar pr...

Angústia e pandemia

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Anguish , por August Friedrich Albrecht Schenck A obra “Anguish”, do artista August Friedrich Albrecht Schenck, revela uma estreita relação entre morte e angústia. A morte é uma situação de perda para a qual não há respostas prontas, como usualmente são as demais circunstâncias nas quais uma angústia avassaladora se impõe. De acordo com Lacan, no Seminário 10, a angústia é esse corte – esse corte nítido sem o qual a presença do significante, seu funcionamento, seu sulco no real, é impensável; é esse corte a se abrir, e deixando aparecer [...] o inesperado, a visita, a notícia [...]. A angústia não é a dúvida, a angústia é a causa da dúvida .  A morte, provavelmente o pedaço de real mais angustiante para a existência humana, frequentemente é esse inesperado, essa visita, essa notícia. A atual pandemia de coronavírus, por andar entrelaçada com a ideia da morte, angustia.  Entretanto, o fato de não se saber como ficará o mundo depois dos efeitos sociais e econômicos do...

Há psicanálise no ambiente virtual?

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Após mais de 20 dias de quarentena, devido à pandemia viral, enfim o analisante pôde voltar ao consultório do analista, graças ao afrouxamento nas medidas de isolamento social. Ao adentrar a sala de espera, observou que o recinto ainda era o mesmo, mas nem tanto. As paredes não mudaram, os móveis e os quadros conhecidos estavam ali, entretanto havia álcool gel em abundância sobre a mesinha de centro. E havia máscaras, muitas máscaras; um pacote cheio delas. Não pegou nenhuma, pois já trazia a sua própria de casa. Não queria correr o risco de contaminar o psicanalista ou de por este ser contaminado. O vírus, afinal, circula por aí e ninguém sabe exatamente onde está. Ninguém o vê, mas seus efeitos às vezes são percebidos. Pensou no inconsciente. Pensou na transferência analítica. Parou de pensar nessas coisas quando o analista abriu a porta. O analista também usava máscara. O cumprimento não foi como o costumeiro, uma vez que os apertos de mãos não estavam apropriados, igualmente por ...

As temíveis prescrições de alguns médicos

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Médicos geralmente entendem pouco de farmacologia. A menos que cursemos pós-graduação nessa área ou que nos esforcemos em estudos complementares sobre os medicamentos, a maioria de nós, egressos dos cursos de medicina, deparou-se durante a graduação com conhecimentos apenas superficiais a respeito de como tais substâncias funcionam e agem no organismo humano. Entretanto, isso não impede que sejamos os principais, senão únicos, responsáveis pela prescrição de fármacos nas sociedades ocidentais contemporâneas. Será que sabemos o tamanho dessa responsabilidade e estamos em condições de assumi-la? Dignos de reconhecimento pelo trabalho bem feito são os colegas médicos que prescrevem de acordo com suas áreas de atuação, que estudam modo de funcionamento, posologia e potenciais efeitos adversos das drogas que costumam colocar em seus receituários, não se atrevendo a indicar medicamentos cuja farmacologia não dominam. Estes colegas, a propósito, não mantém tratamentos farmacológic...

O homem cujas pernas foram arrancadas

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“Arrancou minhas pernas.” Esta foi a metáfora utilizada por Duarte para reportar-me o que sentia no tocante à morte do filho, jovem policial que perdera a vida em serviço, num acidente enquanto pilotava uma motocicleta. Duarte valia-se com alguma frequência de metáforas, mas notei que não conseguia muito mais do que elas para expressar seus afetos. A propósito, em pouco tempo tratando seu caso percebi que ele, o homem cujas pernas foram arrancadas, tinha significativa dificuldade para falar sobre sentimentos e emoções. Era como se, além das pernas, certos pensamentos fossem “arrancados” de seu psiquismo, não deixando quase nenhum vestígio. Mesmo a metáfora das pernas arrancadas não apareceu na primeira ocasião em que Duarte veio consultar-me, num ambulatório da Aeronáutica. No encontro clínico inicial, o homem queixava-se de fraqueza e achava-se “desgastado”. Militar reformado, aos 65 anos ele parecia triste e de fato consumido pelo tempo, um idoso envelhecido. Ao contrário de outr...