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Em tempos de pandemia, nem só de coronavírus padecem os sujeitos

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Em meio à pandemia de coronavírus, diversas medidas foram adotadas com o objetivo de evitar a disseminação do microrganismo. Nos hospitais, logo na entrada estabeleceu-se um novo esquema de triagem, através do qual um enfermeiro questiona se o paciente possui algum sintoma respiratório, por exemplo, tosse, dor de garganta e/ou dispneia (falta de ar), e uma vez que o sujeito relate sentir um ou mais desses é imediatamente encaminhado para realizar a consulta médica numa ala separada das demais, destinada a receber apenas casos suspeitos ou confirmados de Covid-19, como é conhecida a infecção causada pelo novo coronavírus. No entanto, nessa área, em tese contaminada e não raro temida, nem sempre chegam pessoas triadas adequadamente. Ilustrarei tal situação, de triagem inapropriada, contando o caso de Deise (nome fictício para uma pessoa real). Ela, uma mulher de 30 e poucos anos, chegou à ala Covid, onde eu atendia na ocasião, queixando-se de dores nas costas, que pioravam ao inspirar pr...

Angústia e pandemia

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Anguish , por August Friedrich Albrecht Schenck A obra “Anguish”, do artista August Friedrich Albrecht Schenck, revela uma estreita relação entre morte e angústia. A morte é uma situação de perda para a qual não há respostas prontas, como usualmente são as demais circunstâncias nas quais uma angústia avassaladora se impõe. De acordo com Lacan, no Seminário 10, a angústia é esse corte – esse corte nítido sem o qual a presença do significante, seu funcionamento, seu sulco no real, é impensável; é esse corte a se abrir, e deixando aparecer [...] o inesperado, a visita, a notícia [...]. A angústia não é a dúvida, a angústia é a causa da dúvida .  A morte, provavelmente o pedaço de real mais angustiante para a existência humana, frequentemente é esse inesperado, essa visita, essa notícia. A atual pandemia de coronavírus, por andar entrelaçada com a ideia da morte, angustia.  Entretanto, o fato de não se saber como ficará o mundo depois dos efeitos sociais e econômicos do...

Há psicanálise no ambiente virtual?

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Após mais de 20 dias de quarentena, devido à pandemia viral, enfim o analisante pôde voltar ao consultório do analista, graças ao afrouxamento nas medidas de isolamento social. Ao adentrar a sala de espera, observou que o recinto ainda era o mesmo, mas nem tanto. As paredes não mudaram, os móveis e os quadros conhecidos estavam ali, entretanto havia álcool gel em abundância sobre a mesinha de centro. E havia máscaras, muitas máscaras; um pacote cheio delas. Não pegou nenhuma, pois já trazia a sua própria de casa. Não queria correr o risco de contaminar o psicanalista ou de por este ser contaminado. O vírus, afinal, circula por aí e ninguém sabe exatamente onde está. Ninguém o vê, mas seus efeitos às vezes são percebidos. Pensou no inconsciente. Pensou na transferência analítica. Parou de pensar nessas coisas quando o analista abriu a porta. O analista também usava máscara. O cumprimento não foi como o costumeiro, uma vez que os apertos de mãos não estavam apropriados, igualmente por ...

As temíveis prescrições de alguns médicos

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Médicos geralmente entendem pouco de farmacologia. A menos que cursemos pós-graduação nessa área ou que nos esforcemos em estudos complementares sobre os medicamentos, a maioria de nós, egressos dos cursos de medicina, deparou-se durante a graduação com conhecimentos apenas superficiais a respeito de como tais substâncias funcionam e agem no organismo humano. Entretanto, isso não impede que sejamos os principais, senão únicos, responsáveis pela prescrição de fármacos nas sociedades ocidentais contemporâneas. Será que sabemos o tamanho dessa responsabilidade e estamos em condições de assumi-la? Dignos de reconhecimento pelo trabalho bem feito são os colegas médicos que prescrevem de acordo com suas áreas de atuação, que estudam modo de funcionamento, posologia e potenciais efeitos adversos das drogas que costumam colocar em seus receituários, não se atrevendo a indicar medicamentos cuja farmacologia não dominam. Estes colegas, a propósito, não mantém tratamentos farmacológic...

O homem cujas pernas foram arrancadas

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“Arrancou minhas pernas.” Esta foi a metáfora utilizada por Duarte para reportar-me o que sentia no tocante à morte do filho, jovem policial que perdera a vida em serviço, num acidente enquanto pilotava uma motocicleta. Duarte valia-se com alguma frequência de metáforas, mas notei que não conseguia muito mais do que elas para expressar seus afetos. A propósito, em pouco tempo tratando seu caso percebi que ele, o homem cujas pernas foram arrancadas, tinha significativa dificuldade para falar sobre sentimentos e emoções. Era como se, além das pernas, certos pensamentos fossem “arrancados” de seu psiquismo, não deixando quase nenhum vestígio. Mesmo a metáfora das pernas arrancadas não apareceu na primeira ocasião em que Duarte veio consultar-me, num ambulatório da Aeronáutica. No encontro clínico inicial, o homem queixava-se de fraqueza e achava-se “desgastado”. Militar reformado, aos 65 anos ele parecia triste e de fato consumido pelo tempo, um idoso envelhecido. Ao contrário de outr...

Por uma clínica médica com escuta psicanalítica

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Adelaide veio ao consultório relatar-me que há bastante tempo sofre com dores abdominais. Difusas, mal localizadas, tais dores são intermitentes e não interferem na fisiologia das funções digestivas dela, ou seja, a mulher não apresenta vômitos, diarreia ou constipação associados ao sintoma principal. Tampouco tem dificuldades urinárias ou secreções vaginais anormais. Nega, ainda, febre ou outros sintomas sistêmicos, como perda de peso involuntária (ao contrário, lamenta estar obesa). Um clínico com alguma experiência em medicina, apenas com o curto trecho de anamnese mencionado, cogitará como boa a hipótese de que se trata de um distúrbio não lesivo das vísceras do abdome, embora, claro, deva considerar dados semiológicos adicionais. A propósito, o exame físico da paciente revelava um abdome de difícil avaliação, em decorrência de um panículo adiposo avantajado e de prováveis cicatrizes na anatomia interna, consequentes de uma grande intervenção cirúrgica prévia, à qual Adelaide...

Entre o excesso e a derrocada das instituições, qual o lugar do sujeito?

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Comecemos com o óbvio, mas importante de salientar: não há um lugar definido, pré-determinado, para cada sujeito; logo, não pretendo chegar a uma resposta exata para a indagação que se apresenta no início deste trabalho. Em verdade, essa dúvida movimentará o pensar a respeito de nossa existência, como sujeitos na contemporaneidade. Entretanto, antes de refletirmos sobre o lugar do sujeito entre o excesso e a derrocada das instituições, faz-se apropriada uma breve contextualização histórica, além da apresentação de alguns conceitos. Se a família humana é uma instituição, em conformidade com o que nos diz Lacan, a história das instituições começou com a família. Para utilizar uma referência judaico-cristã, cultura na qual estamos inseridos e que demarca nosso tempo, de acordo com os escritos bíblicos em Gênesis, nos primórdios da vida humana, na origem de todos os povos, havia um homem, Adão, e uma mulher, Eva. Estes seriam, respectivamente, o pai e a mãe da horda primitiva, propos...