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Por uma clínica médica com escuta psicanalítica

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Adelaide veio ao consultório relatar-me que há bastante tempo sofre com dores abdominais. Difusas, mal localizadas, tais dores são intermitentes e não interferem na fisiologia das funções digestivas dela, ou seja, a mulher não apresenta vômitos, diarreia ou constipação associados ao sintoma principal. Tampouco tem dificuldades urinárias ou secreções vaginais anormais. Nega, ainda, febre ou outros sintomas sistêmicos, como perda de peso involuntária (ao contrário, lamenta estar obesa). Um clínico com alguma experiência em medicina, apenas com o curto trecho de anamnese mencionado, cogitará como boa a hipótese de que se trata de um distúrbio não lesivo das vísceras do abdome, embora, claro, deva considerar dados semiológicos adicionais. A propósito, o exame físico da paciente revelava um abdome de difícil avaliação, em decorrência de um panículo adiposo avantajado e de prováveis cicatrizes na anatomia interna, consequentes de uma grande intervenção cirúrgica prévia, à qual Adelaide...

Entre o excesso e a derrocada das instituições, qual o lugar do sujeito?

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Comecemos com o óbvio, mas importante de salientar: não há um lugar definido, pré-determinado, para cada sujeito; logo, não pretendo chegar a uma resposta exata para a indagação que se apresenta no início deste trabalho. Em verdade, essa dúvida movimentará o pensar a respeito de nossa existência, como sujeitos na contemporaneidade. Entretanto, antes de refletirmos sobre o lugar do sujeito entre o excesso e a derrocada das instituições, faz-se apropriada uma breve contextualização histórica, além da apresentação de alguns conceitos. Se a família humana é uma instituição, em conformidade com o que nos diz Lacan, a história das instituições começou com a família. Para utilizar uma referência judaico-cristã, cultura na qual estamos inseridos e que demarca nosso tempo, de acordo com os escritos bíblicos em Gênesis, nos primórdios da vida humana, na origem de todos os povos, havia um homem, Adão, e uma mulher, Eva. Estes seriam, respectivamente, o pai e a mãe da horda primitiva, propos...

Histórias de um plantão na madrugada

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Fazia bastante tempo que eu não assumia plantão noturno no hospital público. Na semana passada voltei a viver essa experiência. Uma aventura, sob muitos aspectos, mas certamente um serviço importante à comunidade, pois no meio da madrugada, enquanto a maioria dorme, há os que sofrem. Pessoas com problemas muito diversos buscam atendimento médico na calada da noite, algumas com doenças orgânicas, patologias que modificam estruturalmente seus corpos, outras com sintomas desvalorizados pela medicina convencional, porquanto inexplicáveis em termos estritamente biológicos. Contudo, seja no primeiro grupo de pacientes, seja no segundo, em comum entre ambos existe o sofrimento humano, atravessado pelos conflitos da alma. Já se passava das quatro da manhã quando José chegou ao plantão. Queixava-se de dor torácica intensa, ventilatório-dependente, estava febril e emagrecido. Afirmou ser portador do HIV, tendo abdicado da terapia antirretroviral há mais de dois anos. Ao exame clínico, aprese...

Doutor, me dá uma receita?

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A resposta à pergunta título deste artigo será simplesmente um sim ou um não, da parte do médico, todavia dependerá de uma série de fatores e do contexto em que se pede a receita. Pensar sobre isso é bastante relevante, particularmente para pessoas que consideram, equivocadamente, ser algo trivial o ato médico de prescrever, quando na realidade encerra-se nele grande responsabilidade. A essas pessoas, portanto, que comumente comportam-se de modo inconveniente solicitando “receitinhas de corredor” para si, dedico a presente reflexão de modo especial. Primeiro fato que devemos considerar: medicamentos prescritos podem causar danos; a propósito, danos potencialmente fatais. Isto levou a prescrição de tais substâncias a figurar atualmente como terceira causa geral de mortalidade no mundo, atrás apenas das doenças cardiovasculares e do câncer, conforme já mencionado outrora neste blog , ao citarmos Peter GØtzche. Logo, como médico, ao prescrever qualquer droga, do mais comum dos analgés...

Lentas elaborações: a psicanálise em meio à doença orgânica

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Um homem com câncer apresentou-se na consulta médica como um ser humano bom, em sua própria visão. Como então poderia um câncer estar crescendo dentro de si? Que fatalidade! Sim, o homem mencionado considerava uma fatalidade, talvez uma injustiça, estar com uma neoplasia. Nota-se que foi o próprio sujeito quem associou o câncer a algo mau, ao indignar-se com o fato de alguém “bom como ele” estar padecendo de tal doença, reconhecidamente “maligna”. Então é tempo de questionarmos: seria mesmo possível para nós, humanos, sermos tão bons assim, a ponto de nos tornarmos imunes ao que é mau? Ou seriam bondade e maldade polos entre os quais necessariamente transitamos, pendendo ora mais para um lado, ora para o outro? Podemos também nos perguntar se cânceres, calculoses, reações autoimunes, condições inflamatórias crônicas, nefropatias, cardiopatias, diabetes e tantas outras patologias orgânicas seriam consequências do acaso. Parece-me que não. Isto não significa que as pessoas sejam “cul...

A trajetória e a importância de um grupo de estudos em Medicina Psicossomática

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A TRAJETÓRIA E A IMPORTÂNCIA DE UM GRUPO DE ESTUDOS EM MEDICINA PSICOSSOMÁTICA* autores: Bruno Guimarães Tannus Beatriz Manzan Dalla Vecchia Yuri Cordeiro Szeremata * trabalho apresentado originalmente no 19º Congresso Brasileiro de Medicina Psicossomática, ocorrido na cidade de Caxias do Sul-RS, em setembro de 2018, e premiado como melhor trabalho na modalidade apresentações orais. Introdução Atualmente o Hospital Governador Celso Ramos (HGCR) é um dos principais recursos de alta complexidade disponibilizado pelo sistema público de saúde na cidade de Florianópolis-SC. Além de receber pacientes encaminhados de outros serviços de saúde que necessitam suporte hospitalar, o HGCR também trabalha com “portas abertas”, acolhendo a população que busca espontaneamente atendimento de urgência. Ocorre, no entanto, que a maioria dos atendimentos dessa demanda espontânea não se configura, tecnicamente, situações graves sob a ótica médica. Porém, é fato que essas pessoas,...