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Histórias de um plantão na madrugada

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Fazia bastante tempo que eu não assumia plantão noturno no hospital público. Na semana passada voltei a viver essa experiência. Uma aventura, sob muitos aspectos, mas certamente um serviço importante à comunidade, pois no meio da madrugada, enquanto a maioria dorme, há os que sofrem. Pessoas com problemas muito diversos buscam atendimento médico na calada da noite, algumas com doenças orgânicas, patologias que modificam estruturalmente seus corpos, outras com sintomas desvalorizados pela medicina convencional, porquanto inexplicáveis em termos estritamente biológicos. Contudo, seja no primeiro grupo de pacientes, seja no segundo, em comum entre ambos existe o sofrimento humano, atravessado pelos conflitos da alma. Já se passava das quatro da manhã quando José chegou ao plantão. Queixava-se de dor torácica intensa, ventilatório-dependente, estava febril e emagrecido. Afirmou ser portador do HIV, tendo abdicado da terapia antirretroviral há mais de dois anos. Ao exame clínico, aprese...

Doutor, me dá uma receita?

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A resposta à pergunta título deste artigo será simplesmente um sim ou um não, da parte do médico, todavia dependerá de uma série de fatores e do contexto em que se pede a receita. Pensar sobre isso é bastante relevante, particularmente para pessoas que consideram, equivocadamente, ser algo trivial o ato médico de prescrever, quando na realidade encerra-se nele grande responsabilidade. A essas pessoas, portanto, que comumente comportam-se de modo inconveniente solicitando “receitinhas de corredor” para si, dedico a presente reflexão de modo especial. Primeiro fato que devemos considerar: medicamentos prescritos podem causar danos; a propósito, danos potencialmente fatais. Isto levou a prescrição de tais substâncias a figurar atualmente como terceira causa geral de mortalidade no mundo, atrás apenas das doenças cardiovasculares e do câncer, conforme já mencionado outrora neste blog , ao citarmos Peter GØtzche. Logo, como médico, ao prescrever qualquer droga, do mais comum dos analgés...

Lentas elaborações: a psicanálise em meio à doença orgânica

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Um homem com câncer apresentou-se na consulta médica como um ser humano bom, em sua própria visão. Como então poderia um câncer estar crescendo dentro de si? Que fatalidade! Sim, o homem mencionado considerava uma fatalidade, talvez uma injustiça, estar com uma neoplasia. Nota-se que foi o próprio sujeito quem associou o câncer a algo mau, ao indignar-se com o fato de alguém “bom como ele” estar padecendo de tal doença, reconhecidamente “maligna”. Então é tempo de questionarmos: seria mesmo possível para nós, humanos, sermos tão bons assim, a ponto de nos tornarmos imunes ao que é mau? Ou seriam bondade e maldade polos entre os quais necessariamente transitamos, pendendo ora mais para um lado, ora para o outro? Podemos também nos perguntar se cânceres, calculoses, reações autoimunes, condições inflamatórias crônicas, nefropatias, cardiopatias, diabetes e tantas outras patologias orgânicas seriam consequências do acaso. Parece-me que não. Isto não significa que as pessoas sejam “cul...

A trajetória e a importância de um grupo de estudos em Medicina Psicossomática

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A TRAJETÓRIA E A IMPORTÂNCIA DE UM GRUPO DE ESTUDOS EM MEDICINA PSICOSSOMÁTICA* autores: Bruno Guimarães Tannus Beatriz Manzan Dalla Vecchia Yuri Cordeiro Szeremata * trabalho apresentado originalmente no 19º Congresso Brasileiro de Medicina Psicossomática, ocorrido na cidade de Caxias do Sul-RS, em setembro de 2018, e premiado como melhor trabalho na modalidade apresentações orais. Introdução Atualmente o Hospital Governador Celso Ramos (HGCR) é um dos principais recursos de alta complexidade disponibilizado pelo sistema público de saúde na cidade de Florianópolis-SC. Além de receber pacientes encaminhados de outros serviços de saúde que necessitam suporte hospitalar, o HGCR também trabalha com “portas abertas”, acolhendo a população que busca espontaneamente atendimento de urgência. Ocorre, no entanto, que a maioria dos atendimentos dessa demanda espontânea não se configura, tecnicamente, situações graves sob a ótica médica. Porém, é fato que essas pessoas,...

Brigas de torcidas, carnavais e hospitais públicos

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Na obra “Moisés e o monoteísmo”, embora se dedique fundamentalmente à compreensão daquilo que mais tarde Lacan conceituaria como Nome-do-Pai, há um pequeno trecho em que Freud comenta especificamente sobre o ódio direcionado aos judeus. Nesses comentários podemos encontrar uma articulação relevante com o chamado narcisismo das pequenas diferenças. Falamos de narcisismo das pequenas diferenças, o que não quer dizer que os efeitos de tal narcisismo sejam pequenos ou invisíveis. Ao contrário, podem ser traumáticos, notáveis. O narcisismo em pauta, o das pequenas diferenças, remete à tendência de cada sujeito em se separar dos outros em função de diversidades menores, enaltecendo-as em detrimento das muitas semelhanças que existem entre ele, sujeito, e as demais pessoas. Pode-se verificar a mesma tendência também em grupos de sujeitos no tocante a outros grupos. Freud afirma, em sua obra supracitada, que um fenômeno de tal intensidade e permanência como o ódio do povo pelos judeu...

Pode haver amargura em meio à doçura do diabetes?

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Em algumas situações pode ser um tanto angustiante ser médico. Não é por não saber o que o protocolo indica prescrever, mas porque, apesar de segui-lo conforme preconizado, simplesmente não há uma resposta terapêutica no doente. Ao contrário, ele parece piorar. Serei mais específico para ilustrar o que estou dizendo e contarei brevemente uma história que poucos dias atrás gerou-me tal angústia, o caso do sr. Valter. Este, claro, é um nome próprio inventado, com o intuito de respeitar o sigilo médico ao qual tem direito o paciente real, mas asseguro-lhe, caro leitor, que os fatos não são meros devaneios de minha cabeça.   Valter é um homem que, não há muito tempo, ingressou na chamada terceira idade. Fora diagnosticado com diabetes antes disso, todavia não se pode dizer que “sofre” de diabetes, pois não se queixa de qualquer coisa sobre essa alteração metabólica glicêmica que um dia disseram-lhe ter. Na verdade, Valter não se queixa de quase nada, apesar de indubitavelmen...

A mulher que tentava engravidar

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Uma colega médica pediu opinião sobre um caso de paciente mulher, na ocasião com 32 anos de idade, que fora ao consultório queixando-se de que “tentava engravidar há 10 anos”. Casada há quase duas décadas, ainda sem filhos, a mulher buscava novamente ajuda médica para aquele que considerava seu grande problema. Outrora já fizera isso, inclusive submetendo-se a tratamentos indutores da ovulação, sem sucesso. Questionava então a colega na consultoria: qual seria o melhor tratamento para essa mulher que tenta engravidar? O marido da paciente apresentava espermograma normal, então a médica deduziu, talvez precipitadamente, que não seria ele o responsável pelo insucesso da tão sonhada gravidez. Quanto à  mulher cujo anseio era estar gestante, realizou previamente alguns exames de imagem (ultrassom e histerossalpingografia), a fim de investigar se possuía eventual anormalidade anatômica que a impedisse de engravidar. Seus ovários e úteros mostraram-se normais, exceto por uma única alte...