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Sobre delírios, alucinações e psicoses

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O sujeito chegou ao consultório médico e trouxe uma demanda inusitada e um discurso de conteúdo estranho. Ele falava sobre pessoas que o vigiavam noite e dia, sem descanso. Essas pessoas seriam seus próprios vizinhos e estariam, entre outras ameaças, planejando mata-lo para roubar seu estimado cachorro, ainda que o animal fosse apenas um simpático vira-latas. Apesar da referida estima pelo cão, o sujeito afirmava mantê-lo amarrado todo o tempo, temendo que ele fosse levado pelos ladrões. Tudo isso foi tema da consulta porque o sujeito achava que o médico, de alguma forma, poderia ajuda-lo a solucionar o problema com os vizinhos. Um familiar do sujeito, que acompanhava a consulta, negou o relato sobre vizinhos à espreita; disse que essas coisas eram invenções da cabeça do sujeito. Este, entretanto, aparentava bastante lucidez, tranquilidade e humor normal enquanto conversa com o médico, não esboçando nenhum estigma que pudesse levantar suspeita, a priori, de uma doença de cunho ...

Dengue, Chikungunya e Zika: manejo prático dos casos suspeitos

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Nos últimos meses, aumentou a preocupação com as doenças virais transmitidas pelo mosquito vetor Aedes aegypti : Dengue, Chikungunya e Zika. Elas ganharam destaque na mídia nacional e até internacional. Isto ocorreu principalmente em virtude da suspeita, ainda em investigação, de que o Zika vírus esteja relacionado a casos de microcefalia em recém-nascidos no Brasil. Independente das confirmações e das refutações ainda por vir, os profissionais de saúde devem estar particularmente atentos às manifestações clínicas que essas doenças podem provocar na população geral, com o objetivo de detectar os casos suspeitos e maneja-los adequadamente. A webpalestra que você pode conferir através do vídeo a seguir apresenta, de forma prática, instruções para executar, com a melhor qualidade possível, o atendimento de pessoas com sintomas sugestivos das viroses em pauta. Para quem não é profissional de saúde, informações relevantes sobre o tema poderão ser obtidas. Cadastre-se no ...

A senhora Pensadora e a passividade de nossos dias

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Semana passada, no final de uma consulta focada na abordagem familiar, a senhora Pensadora (nome fictício), que viera buscar ajuda para tratar um transtorno de ansiedade, fez-me uma pergunta bastante inteligente: “Aonde vamos chegar com isso?”, referindo-se à técnica de abordagem familiar.  Para muitos, um questionamento desse tipo soe inconveniente, como se a pessoa duvidasse daquilo que o profissional estudou e está oferecendo em resposta à demanda trazida em consulta. Para outros, entretanto, perguntas assim refletem a disposição de alguém que está de fato interessado em um tratamento integral, cuja base são o questionamento e o aprendizado contínuos. Não tenho intenção de relegar o conhecimento da medicina convencional a um plano sem importância, até porque dele me utilizo diuturnamente durante meus atendimentos. A senhora Pensadora, inclusive, está sendo medicada, temporariamente, com um inibidor seletivo de recaptação da serotonina. Contudo, não é difícil enxergar qu...

Nos bastidores do pânico e dos corações acelerados

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Para falar sobre os corações acelerados, ou em pânico, começarei apresentando uma história real e muito comum em nossos dias. O personagem principal é fictício, embora seja inspirado em milhares de pacientes que visitam as urgências e consultórios médicos rotineiramente. Esta história traz em seu âmago um problema cuja incidência parece estar diretamente associada à impregnação na sociedade de duas doenças chamadas silêncio e incompreensão. Era uma vez uma jovem universitária que, com seus vinte e poucos anos de vida, sentia frequentemente seu coração acelerar, sem causa aparente. Às vezes também parecia ter palpitações e lhe faltava o ar, outras vezes lhe doía o peito. Ela chegou a acreditar que pudesse morrer de infarto devido tais sensações desagradáveis. Preocupada com seus sintomas, que volta e meia se repetiam, a moça decidiu procurar um médico. Este, depois de examiná-la e submetê-la a diversos testes complementares, concluiu que ela estava apresentando ataques de pânico. O mé...

A triste geração de pessoas concebidas na era do Zika vírus

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Brasil, ano 2036. Cerca de vinte anos depois da “epidemia” do Zika vírus ter atingido seu auge, o país observava um estrondoso número de casos de depressão entre seus jovens adultos, muito acima da média mundial. Profissionais da área de saúde mental esforçavam-se para compreender a causa da maior prevalência da doença nessa população, mas ainda não havia respostas satisfatórias, a não ser o fato de que nenhuma pessoa com microcefalia estava entre os jovens deprimidos. Duas décadas antes, os brasileiros pagavam o preço pela  negligência em reaproveitar resíduos sólidos do lixo; o descarte à revelia servira como reservatórios de água para a proliferação de insetos transmissores de doenças. O processo de urbanização desorganizado e excludente evidenciava-se em cidades de paisagens contrastantes: de um lado, bairros ricos, luxuosos e limpos, do outro, favelas e afins, cujas condições de saneamento básico remetiam aos pobres guetos dos primórdios da Revolução Industrial. Aind...

Intolerância entre médicos e síndromes correlatas: como falar da dignidade?

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Ontem fui banido de um grupo fechado, composto por médicos, no Facebook. Meu "crime"? A seguinte postagem: Algumas horas após a publicação do texto acima, antes de meu exílio, surgiram respostas cujo teor é facilmente perceptível: "ódio pode ser um sentimento muito saudável", "o PT está para os médicos como o nazismo está para os judeus", "o PMDB com toda sua corrupção e sua máquina criminosa é infinitamente melhor que o PT", para ficar em poucos exemplos. A essas primeiras respostas tive a oportunidade de contra-argumentar. Antes de ser banido, eu disse que o ódio não nos faria melhor que quaisquer pessoas cujas ações repudiamos, sejam elas ditadores comunistas, fascistas, nazistas, extremistas islâmicos e afins, e que, se desejamos um país politicamente melhor, devemos combater o bom combate, transformando o eventual ódio que nos acomete em atitudes saudáveis (até porque tenho consciência que nossa natureza humana decaída nos ...

Metformina para emagrecer (só que não)

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Foram-se as festas de fim de ano e, como de praxe, muitos começaram uma luta feroz para não serem derrotados pela balança. Alguns tentarão queimar poucos quilos a mais, sem tanta importância. Outros estão preocupados com o próprio peso há mais tempo e o momento pós-farras alimentares somente os faz lembrar mais veementemente de sua condição. Não restam dúvidas sobre a obesidade ter se tornado, nas últimas décadas, um importante problema de saúde pública, dado o crescimento exponencial de suas prevalências ao redor do mundo. Sabendo que a obesidade é um fator de risco para vários problemas de saúde, considera-se seu tratamento uma importante medida preventiva. O excesso de peso, além de estar associado a diversos tipos de doenças, provoca estigmas que trazem em seu âmago consideráveis prejuízos sociais. Talvez, muito mais que as doenças, o desconforto social seja o principal motor que leva os indivíduos obesos a buscarem soluções para seu problema. Entretanto, muitos deles fantas...