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Os “milagres” do cloreto de magnésio

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Questionou-me recentemente uma colega médica se o medicamento cloreto de magnésio poderia ser utilizado no tratamento de dores articulares e insônia, dois problemas bastante comuns entre pacientes que me procuram no consultório; muito provavelmente no consultório dela também, em virtude da alta prevalência dessas queixas. Pelo que eu sabia até aquele momento, o cloreto de magnésio não tinha efeito terapêutico algum sobre os sintomas mencionados; no entanto, realizei uma pesquisa para tentar fornecer à colega uma resposta cientificamente embasada. Antes de começar minha busca por evidências, porém, perguntei-me de onde teriam vindo as informações que geraram a dúvida da outra médica. Recorri, então, ao Google. De fato, ao realizar na Internet uma pesquisa sem rigor científico, digitando o nome cloreto de magnésio no popular site de busca, encontrei muitas publicações prometendo curas milagrosas, utilizando o cloreto de magnésio, para diversos problemas de saúde. Percebe-se, no ent...

Será mesmo o glúten um grande vilão?

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Quase todo mundo já ouviu falar do glúten, afinal ele é um termo utilizado para descrever certas frações de proteínas encontradas no trigo, na aveia, no centeio, na cevada e nos derivados desses cereais, os quais estão presentes em inúmeros alimentos comuns, como a maioria dos pães e massas, por exemplo. Os rótulos de alimentos industrializados, inclusive, costumam informar se o produto contém ou não glúten, pois diversos problemas de saúde têm sido atribuídos ao consumo dessa substância e algumas pessoas são orientadas a evitá-la. O consumo mundial da chamada “dieta mediterrânea”, rica em alimentos com glúten, vem aumentando nos últimos anos, especialmente porque ela tem sido recomendada para reduzir alguns fatores de risco cardiovasculares. Por outro lado, essa dieta expõe mais as pessoas ao glúten e aos possíveis distúrbios a ele relacionados, entre os quais a doença celíaca é o mais conhecido, com prevalência em 1% da população. A doença celíaca pode ser definida como uma...

Anticoncepção além da pílula

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O planejamento familiar é um direito das pessoas, embora não seja exercido em inúmeras circunstâncias. Muitas vezes ele não é levado a termo em virtude de pulsões sexuais transformadas em ato irresponsavelmente, através de coitos desprotegidos. Outras vezes, no entanto, observa-se que as pessoas abdicam de seu direito por mera ignorância em relação às diversas possibilidades de métodos contraceptivos, ainda que a maioria deles seja distribuída gratuitamente através do sistema público de saúde. Embora a primeira situação seja de compreensão difícil, aplacar parte do desconhecimento sobre anticoncepção pode ser viável às pretensões deste texto. Comecemos chamando a atenção para a condição do grupo de mulheres mais próximo da menopausa. Antes de pararem definitivamente de produzir óvulos, geralmente em torno dos 50 anos de idade, as mulheres costumam vivenciar um período longo de irregularidade menstrual. Nesta fase irregular ainda há possibilidade de engravidar, portanto o planejamen...

Breve comentário sobre a pílula rosa

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Foi destaque durante esta semana no noticiário internacional a “pílula rosa”, que tem como princípio ativo a flibanserina. Quando parecia que já tínhamos visto tudo o que era possível em termos de medicalização do ser humano, ela apareceu com a prepotência de anunciar que "desperta o desejo feminino pelo sexo". Pior que esta bobagem imensurável é saber que vai haver uma avalanche de mulheres, em corrida desesperada às farmácias, tão logo as primeiras caixinhas da medicação cheguem às prateleiras. Desejo, por definição, jamais poderá ser medicado, pois isto seria o mesmo que abrir mão da condição humana. A grande doença da maioria das pessoas é exatamente o fato de não darem conta de assumir os próprios desejos, nem mesmo o desejo de não transar (afinal, que grande absurdo seria não querer sexo hoje em dia, não é mesmo?). Parafraseando Dethlefsen e Dahlke, a medicina convencional promete, com suas pílulas mágicas, restaurar corpos e mentes humanos com diversos tipos d...

Enurese, o xixi repleto de significado

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Um colega de profissão questionou-me sobre um caso de enurese noturna, o famoso “xixi na cama”, em um menino de 7 anos de idade. A dúvida era sobre a abordagem indicada para essa criança, pois até o momento ela teria recebido apenas tratamento psicológico, sem resolução de seu problema. Na apresentação do caso, o colega mencionou a história familiar do menino como “sem importância para o caso”. Eis aqui, provavelmente, a principal dificuldade do médico em ajudar seu paciente: não considerar o contexto. A história familiar tem importância sim, e muita, para o caso dessa criança. Somente a partir deste entendimento, poderemos pensar na possibilidade de cura. Conhecer o funcionamento da família da qual a criança faz parte, bem como outros aspectos de seu contexto social, é parte fundamental da investigação e do manejo dos casos de enurese, pois as causas psíquicas são fatores preponderantes à ocorrência desse problema. Isto é particularmente verdadeiro quando já foram descarta...

O uso crônico de omeprazol e as verdades difíceis de engolir

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Não é incomum as pessoas comprarem e utilizarem medicamentos sem indicação médica, assim como não é raro encontrarmos prescrições médicas inadequadas por aí. Estas duas ações, em conjunto, trazem um sério problema para a saúde de muitos: o uso incorreto de certas medicações. Entre os campeões neste sentido, estão os analgésicos comuns e os anti-inflamatórios não esteroidais. Contudo, recentemente vem ganhando destaque a utilização inadvertida de omeprazol, uma das pautas de nossa conversa hoje. Ao fazer referência ao omeprazol, podemos estender nosso raciocínio a todos as outras drogas de sua classe, conhecida como inibidores da bomba de prótons do estômago, entre os quais estão ainda esomeprazol, lanzoprazol, pantoprazol e rabeprazol, pois seus mecanismos de ação são praticamente idênticos e, até o momento, não há evidências científicas definidas indicando superioridade de um deles sobre os demais (esta informação, no entanto, não raro é negligenciada ou distorcida por médicos e...

A família como um sistema determinante de saúde

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Família. Uma palavra pequena que pode nos remeter a diversos sentimentos. Um conjunto de pessoas que, funcionando como um sistema altamente complexo, exerce forte influência sobre a saúde dos indivíduos que o compõe, de maneira positiva ou negativa. Em alusão ao Dia Internacional da Família, celebrado no dia 15 de maio, proponho hoje uma reflexão para mergulharmos, ainda que superficialmente, nas particularidades do sistema familiar e sua importância para a saúde dos seres humanos. Para começar, vale dizer que uma das definições antropológicas de família a toma como um grupo de pessoas com grande intimidade entre si, que possuem uma história e planejam um futuro juntas. Ao usarmos esta definição, geralmente estaremos falando da unidade familiar ou família nuclear, com seus componentes residindo, habitualmente, em um mesmo local. Percebemos, assumindo tal ideia de família, que não há necessidade da existência de parentesco biológico para que indivíduos sejam considerados membros d...